O desafio de colocar a vida financeira em ordem

O desafio de colocar a vida financeira em ordem

Por André Massaro, professor e especialista em finanças e investimentos.

No mundo das finanças pessoais, poucos problemas financeiros são, verdadeiramente, “financeiros”. A maior parte dos nossos “rolos” financeiros é, na verdade, de natureza psicológica, comportamental ou de “falta de sintonia” entre curto prazo e longo prazo – o que é especialmente verdadeiro no caso da organização e do planejamento financeiro.

Essa questão do conflito entre curto prazo e o longo prazo é porque praticamente todos os objetivos de longo prazo dependem de algum sacrifício no curto prazo.

Emagrecer e virar musa (ou muso) fitness é um objetivo de longo prazo que exige sacrifícios de curto prazo (dieta e esforço).

Fazer uma carreira profissional brilhante e bem sucedida é um objetivo de longo prazo que exige sacrifícios de curto prazo (estudo, perda de horas de sono etc.). E, como não poderia ser diferente, ter uma vida financeira saudável e próspera é um objetivo de longo prazo (para quem ainda não chegou lá) que envolve sacrifícios no curto prazo (cortar gastos, economizar, eliminar dívidas e formar reservas).

Às vezes, para chegarmos no nosso objetivo, o sacrifício é inevitável. Mas um bom planejamento pode minimizar (dentro das possibilidades) esses sacrifícios e fazer com que o caminho rumo ao objetivo seja mais rápido.

E, neste artigo, vamos ver como uma pessoa consegue se planejar para fazer essa transição (de uma vida financeira caótica e frágil para uma vida financeira organizada e sólida).

1º passo – Entenda suas dívidas

O principal (e mais grave) “sintoma” da desorganização financeira é o endividamento. E é importante reforçar isso: Que as dívidas são o “sintoma” e não a doença. Dívidas não são a causa da desorganização financeira, e sim a CONSEQUÊNCIA.

Por isso, um projeto de reorganização da vida financeira começa com um levantamento das dívidas, para se saber qual é o “tamanho da encrenca”. Neste levantamento, é importante se listar todas as dívidas existentes, colocando os valores devidos, a taxa de juros, os prazos e quem é o credor.

E, muito importante: Lembrar que “dívidas” é tudo aquilo que a gente deve, e não apenas aquilo que está em atraso. É comum as pessoas confundirem “endividamento” com “inadimplência”. Se você tem dívidas que estão “em dia”, elas continuam sendo dívidas…

2º passo – Descubra a origem das dívidas

Quando uma pessoa está endividada e toma real consciência de sua situação (o que costuma acontecer após esse levantamento detalhado das dívidas), um primeiro impulso é já sair renegociando as dívidas, para “se livrar” delas o mais rapidamente possível.

Porém, idealmente, isso deve ser feito em um outro momento. Nesta etapa, é importante focar em descobrir as causas do endividamento (lembrando que o endividamento é o sintoma e não a doença).

Neste passo, se deve fazer um levantamento da vida financeira, identificando todas as entradas e saídas de dinheiro, em busca da verdadeira causa.

Como foi falado no começo do artigo, a maioria dos “problemas financeiros” são mais comportamentais do que financeiros. Porém, a causa do endividamento é puramente matemática: Sai mais dinheiro do que entra.

A causa do endividamento é, então, o desequilíbrio financeiro (se gasta mais do que se ganha). E a “missão”, agora, é descobrir onde está esse desequilíbrio. Algumas pessoas já sabem muito bem onde está o desequilíbrio. Pode ser por causa de perda de renda (demissão, por exemplo), gastos imprevistos (que desequilibram o orçamento) ou, simplesmente, um estilo de vida incompatível com a renda, onde a pessoa gasta mais do que ganha.

Mas, às vezes, a pessoa não percebe que está gastando mais do que ganha. Ela não “registra mentalmente” os gastos em excesso que levam ao desequilíbrio. É apenas quando a pessoa coloca as contas no papel (ou em uma ferramenta específica de controle financeiro) que esse desequilíbrio fica claro.

Neste momento, os “vazamentos de dinheiro” ficam evidentes, e se pode pensar em medidas para eliminar esse desequilíbrio.

3º passo – Elimine o desequilíbrio financeiro

Se, em sua análise, você concluiu que seu desequilíbrio é oriundo da falta de renda, sua prioridade absoluta é encontrar outras fontes de renda. Cortar despesas, neste caso, só vai te dar mais “fôlego” (o que é importante, mas não é o suficiente). Agora, se você tem receitas, mas está gastando mais do que ganha, bem… Não podemos subverter as regras da matemática!

Você pode (e deve) tomar medidas para aumentar sua renda no futuro e ter um padrão de vida melhor (de forma sustentável). Porém, no curto prazo, não há outro caminho a não ser cortar despesas.

Equacione suas contas (cortando e reduzindo as despesas, onde der), até que você consiga chegar em um ponto de equilíbrio onde passe a SOBRAR algum dinheiro. E esta parte é extremamente importante – você NÃO DEVE sair renegociando dívidas sem saber QUANTO dinheiro vai ter para pagar seus compromissos. Afinal, uma renegociação de dívidas implica, essencialmente, em uma nova dívida.

E se tem uma coisa que não deve (ou não deveria) acontecer é passar por todo stress, pelo desgaste e pela “encheção de saco” de renegociar as dívidas apenas para, logo em seguida, voltar para a mesma situação.

Você deve determinar qual será a sua capacidade mensal de pagamento – o quanto de dinheiro vai sobrar para equacionar essas dívidas. Obviamente, isso vai exigir sacrifício (lembre-se – sacrificar o curto prazo para ter um benefício de longo prazo), mas é fundamental que você não assuma compromissos ACIMA de sua real capacidade de pagamento. Senão, a única certeza é a de que você terá que renegociar novamente no futuro…

Apenas quando você souber qual é o valor que pode comprometer por mês é que deve partir, efetivamente, para a renegociação.

4º passo – A eliminação das dívidas

Nesta etapa, você já sabe qual é a causa das dívidas (o sintoma) e já sabe qual é a “dose de remédio” (a sua sobra mensal de dinheiro) que vai poder usar no “tratamento”.

Este é o momento em que você pode procurar seus credores para renegociar (buscar prazos mais longos e melhores condições de pagamento) ou, se for o caso, buscar novas fontes de crédito mais baratas para liquidar suas dívidas atuais. E, neste momento, um simulador de empréstimos será uma ferramenta muito útil!

Esse procedimento de tomar uma dívida mais barata para pagar uma dívida mais cara é o que se chama, no jargão das finanças, de “reestruturação de dívidas”. A renegociação e a reestruturação de dívidas são procedimentos que podem envolver alguma complexidade, mas se torna uma coisa bem mais fácil se soubermos as características das nossas dívidas atuais e, o mais importante: o QUANTO podemos pagar.

Com isso, se define um cronograma de pagamentos que, se devidamente executado, vai levar à eliminação das dívidas.

5º passo – Planejar o longo prazo

Nesta etapa, presume-se que o equilíbrio financeiro foi alcançado, que os vazamentos financeiros estão devidamente “estancados” e que, daqui em diante, é uma questão de tempo (e disciplina) para que o endividamento seja eliminado ou, pelo menos, colocado em níveis razoáveis e controlados.

Agora, é um momento interessante para fazer um planejamento financeiro mais amplo e abrangente, que envolva não só o controle dos seus gastos, mas a formação de uma reserva de emergências (para trazer tranquilidade no caso de imprevistos) e a definição de uma estratégia pessoal de investimentos, para que você possa construir um patrimônio que te dê, quem sabe, algum grau de independência financeira no futuro.

Afinal, como você já sabe, a tranquilidade no longo prazo é construída com sacrifícios no curto prazo. E, com planejamento, organização e disciplina, esses sacrifícios podem ser bem menores e gerar muito menos desconforto.

Inclusive, “investir” implica em fazer um sacrifício no curto prazo (você deixa de gastar aquilo que poderia, neste momento) para ter um benefício no longo prazo (o retorno esperado). Investidores de sucesso são, antes de qualquer coisa, especialistas em fazer sacrifícios (e ficam felizes com isso…).

E colocar a vida financeira em ordem é um investimento com retorno garantido. Não só financeiro, mas, também, de qualidade de vida.

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