O verdadeiro papel do crédito

O verdadeiro papel do crédito

Por André Massaro, professor e especialista em finanças e investimentos.

No mundo da educação financeira, é comum (e compreensível) que ocorra a vilanização do crédito. Especialmente em um país como o nosso, onde as taxas de juros ao consumo são tão altas e tantas famílias estão em situação de endividamento ou, mesmo, de inadimplência.

Porém, nunca é demais lembrar que o crédito é uma ferramenta. É o uso que fazemos do crédito que determina qual será o “abalo” em nossa situação financeira.

O poder de antecipar o tempo

O “superpoder” do crédito é nos permitir antecipar coisas no tempo. Aquilo que você teria que esperar um mês (ou mais) para comprar, você pode adquirir agora, com o uso do crédito. Só que, naturalmente, esse poder de antecipar o tempo tem um custo: os juros.

E esses juros são maiores ou menores, conforme a finalidade dos recursos, o prazo e o perfil de quem está tomando o crédito.

Nas nossas vidas, em certas circunstâncias, não temos opção a não ser antecipar os recursos para poder fazer alguma coisa, nem que isso tenha um custo alto.

O verdadeiro problema é quando a pessoa acha que o crédito é dinheiro “grátis e infinito” e começa a antecipar tudo, inclusive coisas triviais e supérfluas.

Mas vamos dar uma olhada nas principais modalidades de crédito do mercado.

Os tipos de crédito

Existe, no mercado, uma infinidade de opções de crédito, tanto para indivíduos quanto para empresas.

No Brasil, as modalidades de crédito mais comuns, para pessoas físicas, são:

Cheque especial

É uma linha de crédito que os bancos podem disponibilizar para seus correntistas sacarem dinheiro ou fazerem pagamentos sem ter saldo. É um tipo de crédito automático e rotativo. O cliente não precisa “pedir” (se já tiver a linha disponível) e não há uma data estabelecida para pagamento.

Se trata de um EMPRÉSTIMO (em que o dinheiro não está vinculado a alguma transação específica, como é o caso de financiamentos) e, por conta disso, é um crédito de alto risco para quem empresta.

Além disso, normalmente, a instituição financeira não tem garantias. Por isso, o cheque especial é uma das modalidades de crédito mais caras do mercado.

Cartão de crédito

O cartão de crédito é uma ferramenta que dá, ao seu usuário, uma linha de crédito sem custo para uso em determinado período (usualmente uma “janela” de trinta dias). É uma excelente ferramenta de planejamento e controle financeiro (pois concentra os pagamentos em uma única data do mês) e a instituição financeira emissora do cartão é remunerada por taxas cobradas daqueles que recebem os pagamentos ou do próprio cliente (a “anuidade”).

Existe uma linha adicional chamada de “crédito rotativo”, para financiar o cliente quando ele não consegue (ou não quer) pagar o saldo devido integralmente. Esse crédito rotativo é outra modalidade que é de alto risco para a instituição financeira e, assim como o cheque especial, não tem garantias.

Por isso, é tipicamente uma modalidade de crédito de custo bastante alto.

Porém, existem inúmeras opções de cartão de crédito no mercado, com diferentes condições de anuidade e de crédito rotativo. Saiba mais sobre as opções do mercado.

Crédito pessoal

É uma modalidade de crédito que é um empréstimo (o devedor vai ter o dinheiro “na mão”, para usar como quiser) e, tipicamente, não tem garantias.

É uma das modalidades mais simples de crédito. Diferentemente do cheque especial, ele precisa ser “solicitado” e não é rotativo – ou seja, é uma transação que tem um prazo determinado e deve ser quitada nesse prazo.

Crédito consignado

É similar ao crédito pessoal nas condições gerais. Porém, o pagamento é feito diretamente em folha de pagamento (com autorização do devedor).

Para a instituição financeira, é uma modalidade bem mais segura que o crédito pessoal, pois ela recebe o dinheiro automaticamente, sem precisar passar pelo cliente. Por isso, é uma das modalidades de crédito ao consumo mais baratas do mercado.

A desvantagem é a acessibilidade. Como o crédito consignado é descontado diretamente em folha de pagamento, ele só é disponível para trabalhadores formais, aposentados e pensionistas.

Antecipações de IR e 13º salário

Algumas instituições financeiras podem antecipar créditos do cliente, como o 13º salário e a restituição do Imposto de Renda.

São, também, operações seguras para a instituição financeira, pois aquele dinheiro “já existe” (ele só está “em algum lugar do futuro”). O cliente cede esses créditos para a instituição financeira e ela os antecipa (com os juros descontados, naturalmente).

A desvantagem é, assim como no caso do crédito consignado, a acessibilidade. Essas modalidades de crédito só estão disponíveis para aqueles que têm direito a 13º ou restituição a antecipar.

Hipoteca (ou refinanciamento)

É o chamado “empréstimo com garantia em imóvel”. É um tipo de operação muito segura para a instituição financeira, pois tem uma garantia real (o imóvel do devedor).

Por ter uma garantia real e ser de baixo risco (para quem financia), as taxas de juros costumam ser baixas. Porém, para quem toma o empréstimo, há o risco real de perda do imóvel dado em garantia.

Financiamento de bens duráveis

Aqui, estamos falando em financiamentos (que são diferentes de empréstimos). No financiamento, o devedor não tem acesso ao dinheiro – apenas ao bem que está sendo financiado.

No caso dos financiamentos, merecem destaque o financiamento imobiliário e de automóveis. São bens duráveis, de alto valor e que, usualmente, são dados como garantia da própria operação.

Por conta disso, costumam ter juros mais baixos que as modalidades típicas de empréstimos.

O que define o custo do crédito

A lista de modalidades de crédito apresentada neste artigo (que não é uma lista exaustiva, e sim apenas as mais comuns) foi feita “mais ou menos” em uma sequência que vai das mais caras para as mais baratas (considerando que há grande variabilidade, especialmente entre diferentes instituições financeiras).

Pela sequência da lista, já dá para perceber que empréstimos tendem a ser mais caros que financiamentos (pois o dinheiro fica “livre” com o devedor) e que a presença (ou não) de garantias é determinante no custo final da operação.

Outros fatores que interferem no custo são o prazo (quanto mais longo, maior o risco para quem empresta) e a “qualidade” do devedor.

Uma pessoa com um histórico de crédito “bagunçado” pode acabar pagando mais caro, ou, simplesmente, não ter acesso ao crédito.

Como usar o crédito de forma consciente

Como foi dito no começo do artigo, o crédito não é um vilão, e sim uma ferramenta.

Para usar o crédito de forma consciente é preciso, antes de qualquer coisa, ser um consumidor consciente. E uma das principais características de um consumidor consciente é saber diferenciar desejos de necessidades.

Usar o crédito para financiar nossas necessidades é algo justificável e, às vezes, é a única possibilidade. Porém, se endividar por causa de “desejos” (especialmente em um país de juros altos, como o Brasil) é suicídio financeiro! E isso é particularmente verdadeiro para aquelas pessoas que cedem facilmente aos desejos, consumindo de forma impulsiva (e gastando o que não têm…).

Também é importante pesquisar e entender, ainda que de forma básica, as diferentes modalidades de crédito, seus custos e seus riscos. E ter em conta que existem muitas opções no mercado.

Inclusive, uma coisa que um consumidor consciente sempre faz é pesquisas de preço. E, da mesma forma que se pesquisa produtos e serviços, se deve pesquisar as modalidades de crédito e suas condições.

Outra coisa muito importante (e muito negligenciada) é a organização financeira. Muitas pessoas se “enrolam” financeiramente, não só por causa das dívidas, mas, sim, porque elas são ignoradas e crescem de forma descontrolada. Por isso, mantenha sempre sua vida financeira organizada.

E, ao contrário do que dizem algumas pessoas (inclusive gente da área de educação financeira), fazer dívidas não é nenhum “pecado”. Pelo contrário, em certas circunstâncias, não temos outra opção a não ser ANTECIPAR recursos futuros para resolver problemas do presente.

Não é desejável, mas, às vezes, é necessário. E, se precisar fazer, faça com consciência!

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